ARTIGO

João Pessoa - PB, domingo, 9 de maio de 2004

O texto aspeado, que segue abaixo, foi retirado do livro "Anotações para a História da Paraíba"1 de Reinaldo de Oliveira Sobrinho2.

 

A CASA DE PEDRA E A LENDA DE NATHÁLIA


 

"´A casa de Pedra, construída no início do século XVIII, na margem leste da imensa Lagoa, localizada no sudeste paraibano e que originou a cidade de Princesa Isabel, foi destruída pela ação predatória dos pseudo/administradores do município. Era uma simples casa. Vivia esquecida e silenciosa, nas suas grossas paredes de pedras, que vinham sobrevivendo heroicamente, abrigando um cheiro esquecido do antigo.

Seu estilo rústico não impressionava, nem era uma casa com ares de mal-assombrada. Era apenas um marco, era história.

Anos depois, Nathália recebia em sua choupana uma expedição que seguia a trilha rudimentar da rota utilizada por franceses, portugueses e flamengos, para extrair o ouro abundante de Cachoeira de Minhas. Vem desse tempo a construção da famosa Casa de Pedra de Nathália, que serviu como balizamento inicial do município, e, anos depois, de residência do padre Francisco Tavares Arcoverde, construtor da primeira capela do município.

Os vaqueiros, que tentavam arrebanhar um barbatão perdido nas abas da serra, narravam, fascinados, o que viam durante as noites de lua em que eram forçados a acamparem no mato, quando assombrados e perplexos, arregalavam os olhos incrédulos, no vulto de um cavalo alado, voando à direção da Lagoa e montado por uma mulher. E como em toda transcrição oral, a origem da construtora da Casa de Pedra virou lenda. Transformou-se em mistérios. Mistérios recheados de verdades e fantasias, que ainda hoje se confundem com a história oficial.

A lenda fala de uma mulher branca, de cabelos longos, que, nas noites de lua pousava a sua vassoura de cauda luminosa à beira da lagoa. Vinha do alto do chapadão da Borborema.

Antes de desaparecer para sempre, na vassoura de cauda luminosa ou sobre o cavalo alado, essa mulher conquistara um nome bem significativo: Nathália do Espírito Santo.'

A citação é do jornalista Paulo Marinho3, que acentua: ´São estórias autenticadas pela transcrição oral, que se confundem com a própria história.' "

Afinal, dona Nathália existiu?

Emmanuel Conserva de Arruda esquadrinhou vários documentos e não encontrou provas cabais que ratificassem isto, o que é citado em sua monografia4 de conclusão do curso de História na Universidade Federal da Paraíba.

Contudo, há outro pesquisador que está fazendo um grande levantamento genealógico, baseado em registros de cartórios de Princesa e de toda região que circunda o município. Ele passa as tardes confinado no tabelionato, onde faz as diligências, e afirma que possui documentação comprobatória de que Nathália do Espírito Santo não é lenda. E mais, garante que sabe a data do falecimento dela e o nome de um dos filhos, sendo que a maternidade sobre um segundo está sob suspeita, em banho-maria, na dependência de maiores investigações.

Aguardemos, pois, a publicação dos indícios para que as elucidações não fiquem, mais uma vez, atreladas à "transcrição oral", cuja validade é tênue.

(Mardson Medeiros)

1 SOBRINHO, Reinaldo de Oliveira. Anotações para a História da Paraíba. João Pessoa: Idéia, 2002. v. 1.

2 Membro da União Brasileira de Escritores (seção da Paraíba), Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, Instituto de Genealogia e Heráldica da Paraíba, Academia de Letras de Campina Grande (PB), Academia Cabofriense de Letras (RJ), Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e Comissão Paraibana de Folclore.

3 Na verdade, Paulo Mariano.

4 ARRUDA, Emmanuel Conserva de. As fronteiras da perdição: o processo de colonização do sertão paraibano na Serra da Borborema (1766-1822). João Pessoa: /s.e./, 2003. (Monografia de Graduação/DH/CCHLA/UFPB).

5 A fotografia que ilustra este artigo foi gentilmente cedida por José Frazão.

 

João Pessoa - PB, terça-feira, 11 de maio de 2004

Emmanuel Arruda, via e-mail, comenta o artigo:

"Eu cito este mesmo trecho na minha monografia. E o que eu digo nela é que se dona Nathália existiu, ela só surge numa fase posterior da história da cidade, pois naquele momento (1766-1822) são outros nomes que figuram nos documentos. E isso é confirmado pelas pesquisas de Francisco, onde todos os documentos que surgem são de datas após o meu recorte. Apresentarei o capítulo referente aos documentos no Encontro de História que irá acontecer em Campina Grande no próximo mês."

 

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