NOTÍCIA

 

Princesa Isabel - PB, quarta-feira, 20 de julho de 2005

 

Revolta de Princesa de volta às telas

O princesense Marcelo Elias coordena equipe de paraibanos que tenta trazer o conflito armado de 1930 de volta ao cinema. O projeto baseia-se na produção de um documentário que tenta mostrar como um pequeno município do alto sertão da Paraíba rebelou-se contra o governo estadual.

Não é a primeira vez que a "Revolta de Princesa" é abordada num filme. Em 1982, o cineasta Vladimir Carvalho contou a vida de José Américo de Almeida em um documentário, intitulado "O Homem de Areia". José Américo, na época do conflito, era Secretário de Segurança da Paraíba e, portanto, teve participação direta nos embates. No filme de Vladimir, há cenas gravadas em Princesa. Pouco depois, em 1983, Tizuka Yamasaki dirigiu "Parahyba, mulher macho", que se detém à história de Anayde Beiriz - poetisa, jornalista e professora; amante de João Dantas, o assassino de João Pessoa. No trabalho de Yamasaki, as disputas de 1930 são sutilmente tratadas.

Há dois méritos iniciais no novo documentário. O primeiro refere-se ao fato de o lançamento estar previsto para este ano, o 75º após o conflito. O segundo, bem mais relevante, é ter como enredo principal, pela primeira vez,  a própria Revolta e, não, relegá-la a plano de fundo para biografias de personalidades paraibanas.

A verdade é que o diretor terá em mãos uma tarefa espinhosa: tratar o tema sem "enveredar pelo terreno do encômio ou ataque às facções envolvidas"*.

(Mardson Medeiros)

 

* citação encontrada em RODRIGUES, Inês Caminha Lopes. A Revolta de Princesa – Uma Contribuição ao Estudo do Mandonismo Local (Paraíba – 1930). João Pessoa: A União Editora, 1978.
 

EM PROFUNDIDADE

Abaixo, seguem duas matérias veiculadas no "Jornal do Commércio", Recife - PE, além de parte do material publicado no "Princesapb web!" referente à "Revolta de Princesa".

Revolta de Princesa
Paraibanos querem filmar revolta que criou república em cidade do interior
Publicado em 19.07.2005, às 13h31

Imagem cedida por Marcelo Elia
Cidade adotou bandeira, hino e constituição próprios após revolta


 

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Walmar Andrade
Do JC OnLine

Imagine o seguinte enredo de filme: por causa de desavenças políticas e econômicas, uma cidade interiorana rebela-se contra o Estado a que pertence, derrota a polícia com um exército de jagunços e, comandada por um coronel letrado, torna-se uma ilha de progresso e cultura com bandeira, hino e constituição próprios. Fantasioso demais? Pois essa história – conhecida como Revolta de Princesa – aconteceu em 1930 na Paraíba e deve ganhar as telas em forma de documentário até o fim deste ano, numa iniciativa de um grupo de cerca de 30 paraibanos que vivem em Brasília.

"Nossa idéia inicial era um filme de ficção com atores paraibanos como José Dumont e Marcela Cartaxo interpretando os personagens da revolta, mas financeiramente seria inviável. Estamos investindo agora na idéia do documentário", afirma o assessor parlamentar Marcelo Elias Barros, um dos envolvidos na produção do documentário. A expectativa é de que até novembro o filme esteja concluído.

Para o chefe do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco, Severino Vicente da Silva, a revolta teve ligações diretas com a Revolução de 30, que colocou Getúlio Vargas no poder. "A Revolta de Princesa poder ser considerada um estopim para a Revolução de 30 por evidenciar a cisão dos poderosos da época e mostrar o processo de enfraquecimento da República Velha, que já não podia mais manter o controle de todos os coronéis", observa o historiador.

A idéia do filme surgiu entre 2001 e 2002 como uma das ações do projeto Brasil Nordeste, elaborado pelo grupo de paraibanos para difundir a cultura nordestina no Sul, Sudeste e Centro-Oeste do País e diminuir o preconceito contra os imigrantes.

"O filme veio a calhar por divulgar um acontecimento que o restante do Brasil pouco conhece: a revolta de uma cidade pequena, encravada no interior do Nordeste, comandada por um coronel que se meteu a criar quase que uma República", conta Marcelo Elias, que é natural de Princesa, cidade localizada a 410 quilômetros de João Pessoa (PB).

Segundo ele, a história dá um bom filme. "Você imagine um coronel do interior que briga com o presidente da província, monta um exército de jagunços e derrota o aparato policial. E não era um coronel botocudo. Esse estudou na Faculdade de Direito do Recife, introduziu cinema, teatro e até uma academia literária que levou o movimento modernista de 1922 para Princesa", revela o assessor.

Os próximos passos para levar a história às telas devem ser dados ainda este mês, através de reuniões com políticos nordestinos em Brasília. A pretensão dos idealizadores é que o documentário seja 100% paraibano, com participação do escritor Ariano Suassuna, do cineasta Vladimir Carvalho e dos músicos Zé Ramalho, Sivuca e Geraldo Vandré.

Documentário
Saiba mais sobre a Revolta de Princesa
 

Imagem cedida por Marcelo Elia
Coronel José Pereira Lima comandou revolta na cidade de Princesa


 

A história que resultou na independência de cinco meses da pequena cidade de Princesa, no Sertão paraibano, começou a tomar forma em outubro de 1928, quando João Pessoa assumiu o governo da Paraíba e passou a desprestigiar os líderes políticos do interior – chamados de coronéis.

"João Pessoa veio da Europa e atuou na Paraíba como um déspota esclarecido. Quis implantar as idéias de fora em uma realidade completamente diferente e acabou desagradando alguns coronéis", declara o assessor parlamentar Marcelo Elias, que integra o grupo que quer filmar a revolta em documentário.

"A Revolta de Princesa é um movimento que envolve a Paraíba, Pernambuco e o Governo Federal. João Pessoa tentava organizar uma estrutura de impostos centralizada na Paraíba, já que havia uma evasão de divisas muito grande pelas fronteiras de Pernambuco", explica o professor Severino Vicente da Silva, chefe do Departamento de História da UFPE.

Em 19 de fevereiro de 1930, João Pessoa viajou a Princesa para tentar costurar com os líderes locais a composição de uma chapa para deputado federal – da qual do ex-governador João Suassuna, pai de Ariano Suassuna, havia sido excluído. O episódio acabou representando o rompimento político entre o coronel de Princesa, José Pereira Lima, e o governador da Paraíba que, em represália, retirou da cidade os funcionários públicos estaduais, além de demitir dos empregos públicos os parentes do coronel e exonerar o prefeito.

A cobrança de impostos sobre a circulação da produção de algodão, que antes era escoada livremente pelo Porto do Recife, também desagradou os produtores de Princesa, cuja economia baseava-se no algodão.

Acontece que o coronel José Pereira tinha em seu poder armas repassadas pelo próprio governo da Paraíba para combater no interior os cangaceiros de Lampião e a Coluna Prestes, do líder socialista Luís Carlos Prestes. Com essas armas e 150 jagunços, o coronel expulsou da cidade, em uma batalha sangrenta, as tropas do governo estadual em 24 de março de 1930.

A polícia juntou 200 homens armados e realizou uma segunda investida contra Princesa, mas acabou derrotada numa emboscada que deixou mais de 100 mortos no dia 5 de julho do mesmo ano. "Nessa batalha, foi com as tropas policiais um feiticeiro para botar medo nos jagunços do coronel. Segundo a história, o feiticeiro foi o primeiro a morrer", conta Marcelo Elias.

Vitorioso, o coronel José Pereira Lima e o prefeito José Frazão de Medeiros Lima baixaram o decreto número um, declarando a autonomia político-administrativa da cidade rebelada – que adotou hino, bandeira, leis, jornal, ministros, exército e moeda próprios. Novas batalhas vieram e a polícia sempre saía derrotada.

João Pessoa chegou a ameaçar um bombardeio aéreo à cidade, o que seria o primeiro uso de avião em um conflito no Brasil. "O avião lançou panfletos ameaçando o bombardeio caso os rebeldes não se entregassem em 24 horas, mas as bombas nunca explodiram", informa o assessor.

A "república" só começou a declinar quando João Pessoa foi assassinado por João Duarte Dantas, no dia 26 de julho de 1930, no Recife, por razões políticas e pessoais. O fato – considerado catalisador da Revolução de 30 – esvaziou a Revolta de Princesa e fez o coronel José Pereira firmar um acordo de paz com o então presidente Washington Luís. As tropas do Governo Federal retomaram à cidade em 11 de agosto de 1930, encerrando a revolta que teve um total estimado de 600 mortes.

CORONEL ILUSTRADO – O coronel José Pereira Lima diferencia-se do tradicional estereótipo de coronel do interior do Nordeste. O líder, que chegou a estudar na Faculdade de Direito do Recife, preocupou-se em levar avanços culturais para a sua cidade.

"O coronel implantou cinema, teatro, automóvel e até uma academia literária. O movimento modernista chegou a Princesa, que se transformou em um pólo de cultura incrível para uma cidade do alto sertão paraibano", avalia Marcelo Elias.

Outro fato que chama a atenção na Revolta de Princesa é a participação de mulheres na linha de frente da luta armada. Apesar disso, elas não aparecem nos registros históricos da época, feitos por homens.

Depois da revolta, o coronel José Pereira, que recebeu anistia, passou a morar em Serra Talhada, no Sertão de Pernambuco. Os progressos que ele levou para a cidade não tiveram continuidade e hoje Princesa é uma cidade no mesmo nível econômico e cultural de outros municípios do interior da Paraíba. (W.A.)

ESPECIAIS AFINS

- Especial Fotográfico: 75 anos da Revolta de Princesa (28/02/05)
- Revolta de Princesa: Miguel Lucena verseja sobre o conflito armado de 1930 (30/03/05)

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